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O incêndio ocorrido no Museu Nacional do Rio de Janeiro na noite de domingo (2) suscitou o antigo debate em relação ao descaso quanto as políticas de revitalização dos patrimônios construídos em várias regiões do país. Embora as razões do incêndio ainda estejam sendo estudadas, vale a informação de que o Museu Nacional tem passado por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para sua manutenção. As consequências da má conservação são visíveis, como paredes descascadas e fios elétricos expostos. Em nota à imprensa, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro afirma que “como Conselheiros e Conselheiras do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) não podemos deixar de repudiar, veementemente, o descaso como a cultura fluminense e nacional vem sendo tratada. O prejuízo é imensurável e o patrimônio cultural, científico e imaterial brasileiros não podem mais ser tratado como um objeto descartável”.

 

Para o arquiteto Dalmo Vieira Filho, grande nome do patrimônio nacional que ajudou a tombar centros históricos em várias cidades brasileiras, há um consenso de que o incêndio do Museu Nacional tenha sido uma tragédia anunciada. “No Brasil não há política cultural digna desse nome. Nos estados, inclusive em Santa Catarina, a regra é que as entidades sejam ocupadas por indicações políticas, totalmente alheias aos problemas e necessidades da atividade cultural”, lamenta o arquiteto. E o especialista alerta: “Em nosso estado, pode haver tragédias dessa natureza: as medidas preventivas são pífias ou inexistentes e a imensa maioria dos espaços culturais está vulnerável a danos e sinistros, veja-se o assalto ocorrido dias atrás na Igreja do Ribeirão da Ilha”.

 

Ainda sobre o incêndio no Museu Nacional, a ex diretora de patrimônio cultural e atual Consultora independente IPHAN/UNESCO, Vanessa Pereira, afirma que o patrimônio é geralmente considerado tema de segunda ordem pelas gestões administrativas nas três esferas governamentais. “A batalha de quem lida pela preservação da memória do Brasil e pela construção de um futuro mais sólido é árdua e, na maioria das vezes, inglória”; comenta. Vanessa lembra do investimento de meio milhão de reais na modernização das instalações elétricas do Museu Histórico de Santa Catarina, que já tem o seu passado marcado por um princípio de incêndio. “Obra das mais relevantes, pois as existentes tinham aproximadamente 40 anos. Mas a realidade de grande parte dos museus catarinenses é muito preocupante, sem recursos e sem equipes especializadas, nossa memória está sob ameaça constante de desaparecimento, não só incinerada pelas chamas do desamparo, mas também saqueada, esfacelada pela ignorância de quem pode salvá-las”, diz a arquiteta e urbanista.

 

 

 

Reportagem: Isabela Collares


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