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Arquitetura não existe sem pessoas

Conselheiro Rodrigo Kirck
Arquitetura não existe sem pessoas - Rodrigo kirck

Não vivemos sem a Arquitetura. Sendo condição daquilo que nos é necessário para vivermos, a arquitetura se traduz em abrigos proporcionados por construções.  Mas não apenas isso, já que ela não serve só para proteger-nos da chuva. Arquitetura apresenta sua importância ao transgredir o seu papel de simples abrigo para proteção, e, passa a se comunicar com o usuário, podendo ser em um simples gesto que supere a esfera prática.

Mies Van Der Rohe afirmou que “arquitetura nasceu quando, pela primeira vez, alguém assentou bem dois tijolos”. Mas fazer arquitetura está relacionado diretamente às reações que edificações provocam no campo emocional, proporcionando sentimentos e pensamentos. Assim, a arquitetura passa a ter valor quando,  além da praticidade de um telhado – por exemplo, agrega,  a perplexidade, o prazer, a reverência e demais sentimentos atrelados a nossa consciência, permitindo o  resgate da memória – de uma residência, hotel, escola ou outra edificação marcante – e nos remetendo a sensações que não podem ser ignoradas.

Nosso entorno diário é estruturado na presença da arquitetura, revelando-se mesmo quando não a buscamos. Querendo ou não, ela faz parte do nosso dia a dia. Diferente de quando fazemos uma viagem a turismo visitando grandes obras, passamos as nossas vidas dentro ou rodeados de construções às quais raramente escolhemos.

A vida acontece nas principais ruas do nosso cotidiano. Desde as ruelas de pequenas cidades às grandes avenidas das metrópoles, vivenciamos construções reais e não a admiração de grandes obras. Isso não significa que as grandes obras não sejam relevantes na construção da nossa história e cidades.

Arquitetura afeta a qualidade de vida, mas não cura o doente e nem ensina o ignorante. Ela auxilia a manter seu usuário vivo. Pode ajudar a curar, auxiliar o ensino e proporcionar ambiente confortável para que seus usuários possam se recuperar e se desenvolver, por exemplo. E assim  pode-nos dotar de sentidos, pois além de fornecer o abrigo, tem como condicionante melhorar nossas vidas.

Qualquer construção é arquitetura, tendo em vista a intenção de civilidade intrínseca na sua razão de existir. A intenção da arquitetura no nosso meio construído, não é apenas de questões ornamentais e estéticos – respeitando uma tênue linha do equilíbrio entre arte e exigências práticas. O melhor paradoxo sobre arquitetura foi cunhado por Vitrúvio no ano de 30 a.C. ao afirmar: [utilitas, venustas, firmitas] – utilidade, beleza e solidez. Desse modo, uma construção tendo beleza e utilidade não tem valia sem solidez. E, com solidez e beleza, sem utilidade tão pouco faz sentido. Vitrúvio nos mostra que as construções devem ser uteis, bem construídas e visualmente confortáveis.

Dificilmente alguém vive 24h atentos a músicas, ensino, trabalho e etc; a onipresença da arquitetura nos obriga a prestarmos menos atenção em todos os detalhes que nos circundam. Mas, fazer arquitetura é comprometer-se com os demais assuntos que nos tangenciam a sociedade, como cultura, educação, política, negócios, saúde, família, religião, história entre outros.

Vivemos no meio urbano, construído e edificado sobre diversas premissas, com edificações e estruturas físicas que caracterizam nossas cidades. Este meio edificado, assim como a arquitetura, é social. No qual, pessoas vivenciam este meio tão diferentemente, como ao entrarem em um museu para admirar obras de arte.

A cidade, bem como a arquitetura, não existe sem pessoas interagindo com o espaço. Uma escola sem crianças é apenas uma abstração do ambiente edificado. A soma do usuário e a estrutura construída é que fomentam a intenção arquitetônica e por consequência a cidade.

Arquitetura jamais existe isolada. Todas as edificações estão ligadas. Àquelas do seu lado, como esquinas, ruas e todas as estruturas que embasam nossas cidades estão conectadas num espaço em que a cidade é muito mais que junções de ruas e avenidas. Cidade é o espaço de criação da memória, impulso para viver em comunidade, sabendo dos limites e diferenças entre seus usuários, traz-nos aquilo que nos une.

Assim o papel da arquitetura é falar diretamente, ser lugar comum a todos, como um corpo coletivo da memória – tendo como base funcional estimular o maior número possível de reuniões, encontros, desafios entre pessoas, classes e grupos – proporcionando o palco em que o drama da vida social seja encenado. O que podemos fazer em um momento que todas as tecnologias e forças nos leva a separar-nos e não  unir-nos?

No caminho que trilhamos, em uma época em que não construímos mais cidades que proporcionem o encontro – mais suscetíveis aos perigos da segregação – precisamos pensar como nos encontrar nesta nova realidade e como a arquitetura pode fomentar isto.

As cidades e a arquitetura representam a realidade concreta contrária ao universo da vida virtual. Algo cada vez mais precioso nesta época de smartphones e internet. Cabe a nós arquitetos, o desafio de fomentarmos a construção das estruturas e espaços que proporcionem o diálogo, convivência, trocas e conexão com aqueles que virão.

**Rodrigo Kirck é arquiteto e urbanista e Conselheiro Estadual do CAU/SC

 

 

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