Mês: janeiro 2017

Publicado em Categoria Arquitetura

Onde a inovação não chega

A inovação governamental é fundamental problemas complexos

André Tamura
WeGov

A inovação é uma pauta atual. No setor público ela começa a aparecer cada vez mais nas agendas e nos programas de governo. Isso é ótimo pois os problemas complexos que pulam em nossas timelines, normalmente estão relacionados com as competências das nossas instituições públicas. E a inovação governamental é fundamental para solucioná-los.

Porém, existe uma camada do setor público, que parece completamente alheia a tudo que acontece no mundo, nenhuma inovação chega até lá. Essa “camada” — vou chamá-la de “umbral governamental (UG)”- é dominada por ações inexplicáveis.

O que é o Umbral Governamental

Recentemente o IPEA divulgou, em nota técnica, uma pesquisa em que os servidores públicos responderam sobre suas percepções com relação à burocracia dos processos internos, questões logísticas, de tecnologia da informação e comunicação, entre outros. Boa parte do “UG” está explicitada na nota.

No “UG” os servidores e agentes públicos vivem uma realidade paralela, aprisionados num universo onde as coisas perderam o significado. O trabalho não faz mais sentido. As pessoas que estão no “UG” não sabem as respostas e pararam de fazer perguntas.

Com todos os avanços que a gestão pública vem conquistando, o “UG” mantém-se impenetrável. Não há inovação capaz de superar o modelo mental que impera no “UG”. Não existe confiança e colaboração entre as pessoas, o “sistema” é sempre o culpado por “ser” sempre desse jeito. “É assim, eu não posso fazer nada.” — é a frase mais dita no “UG”.

Como transformar o Umbral Governamental

É incrível e paradoxal para nós, que capacitamos servidores em inovação, termos que passar pelo “UG” em cada etapa do relacionamento com as instituições. Por exemplo, em uma das práticas do umbral, temos que enviar para os estagiários responsáveis, uma declaração reconhecida em cartório de que nós não empregamos menores na WeGov! Ficamos felizes de parecermos mais jovens do que somos, mas essa demanda tem um custo para nós…

As pessoas importam muito, e para sairmos do umbral, devemos prepará-las em suas competências humanas ao invés de dar-lhes um tipo de trabalho que um bom algoritmo pode fazer muito melhor.

Uma abordagem fundamental é a da motivação adequada das pessoas, não somente “acredite nos seus sonhos”, mas que possa entregar valor e significado para os servidores e que isso seja extrapolado em inovações no serviços ao público.

3 elementos para inovar o umbral

Autonomia: O servidor que tem liberdade de escolha para tomar decisões consegue inovar mais. Com o acesso à informação que temos disponíveis hoje, boa parte dos documentos requeridos, comprovantes, certidões e declarações podem ser checados e validados com buscas rápidas na internet e redes sociais. A autonomia do servidor público gera economia de recursos e celeridade nos procedimentos — inovações sempre bem-vindas.

Excelência: A maioria dos servidores públicos, possuem a ânsia de melhorar o umbral, eles buscam se capacitar e sabem que tem potencial para fazer melhor. Capacitar-se nas competências certas é fundamental para transformar o umbral, é importante buscar a excelência e conectá-la a um propósito. Se seguirmos buscando uma “excelência em datilografia”, o umbral vai prevalecer.

Propósito: Aqui a linha entre vida profissional e pessoal fica tênue, quase transparente. Um propósito maior que o próprio umbigo pode ser determinante para a transformação do umbral, a vontade de executar o trabalho em nome de algo superior (não do superior). Esse propósito é o que faz o servidor levantar da cama e resistir, mesmo depois de várias pancadas na cabeça.

Não sabemos o caminho das pedras para livrar as instituições e seus servidores do “UG”. De uma coisa temos certeza, se as inovações não chegam até lá, temos que criar inovadores. Um servidor público com autonomia, que busque melhorar suas competências e tenha um propósito maior do que conforto e estabilidade, pode transformar o “UG”.


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CAU/AM firma parceria com Associação Amazonense de Municípios

A ação faz parte de uma nova agenda urbana dos conselhos de arquitetura em todo o Brasil

Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas
CAU/AM

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas – CAU/AM com objetivo de valorização da arquitetura e urbanismo nas cidades do interior do Amazonas, firmou na tarde de ontem, 12/01, com a Associação Amazonense de Municípios – A AM parceria para informar prefeitos eleitos da importância de contratar o arquiteto e urbanista.

A ação faz parte de uma nova agenda urbana dos conselhos de arquitetura em todo o Brasil, com intuito de levar aos gestores públicos orientações sobre o planejamento urbano, a mobilidade, o saneamento e a infraestrutura necessária que tanto as cidades necessitam para melhorar a qualidade de vida de seus moradores e mitigar os problemas do dia a dia.

A reunião contou com a presença do Presidente da AAM, João Medeiros Campelo, da Arquiteta e Urbanista Darcleine da Costa Manarte da Comissão Especial de Política Profissional, Política Urbana e Ambiental do CAU/AM, e do Assessor da Presidência do conselho, Arquiteto e Urbanista – José Augusto Bessa Júnior.

“O objetivo do CAU/AM é colocar em prática que cada prefeitura entenda a importância do arquiteto e urbanista, seria ideal que os prefeitos tivessem a referência deste profissional na área de planejamento urbano, para que as cidades não crescessem desordenadamente, ou seja, aumentando gradativamente os problemas tão presentes no interior do Estado”. Afirma José Augusto Bessa Júnior.

 

Carta Aberta aos Prefeitos eleitos no interior do Amazonas

Nos dias 14 e 15 de fevereiro à Associação Amazonense de Municípios – AAM realizará um encontro com prefeitos eleitos do interior do Estado, o evento ocorrerá no Centro de Convenções do Amazonas – Vasco Vasques, em Manaus.

Na oportunidade, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas – CAU/AM oficializará a entrega da Carta Compromisso aos prefeitos eleitos no Amazonas.A carta apresenta três grandes fundamentos, sendo, a governança metropolitana; planejamento urbano e o monitoramento de metas.

As cidades de Manacapuru, Tefé, Parintins e Coari receberam através do departamento de fiscalização do CAU/AM, ano passado, a carta compromisso destinada as prefeituras destas cidades.

Nas eleições para prefeitura de Manaus, em 2016, o CAU/AM entregou aos candidatos a prefeitura, a Carta Aberta que propõe à sociedade e aos políticos um pacto pela qualidade de vida da cidade. O evento ocorreu no II Arq Amazônia, Salão Rio Solimões, no Inter City Hotels Manaus, bairro Adrianópolis.

 

Os principais Pontos da Carta Aberta –Pacto pela Qualidade da Cidade:

– Priorizar o pedestre, criando condições para que as pessoas utilizem as ruas e se sintam seguras;

– Tornar nossas cidades socialmente inclusivas, oferecendo mais oportunidades de interação social e de crescimento pessoal e coletivo, e promovendo espaços para todos os segmentos e faixas etárias, eliminando formas de segregação e exclusão física ou espacial;

– Priorizar empreendimentos habitacionais para população de baixa renda;

– Adotar o modelo de cidade ambiental e socialmente sustentável, incentivando a arborização urbana, estimulando a eficiência energética, o baixo consumo de carbono, a crescente substituição por fontes de energia renováveis e a reutilização dos resíduos;

– Promover a preservação da memória paisagística, urbanística e arquitetônica da cidade;

– Associar mobilidade e território, gerando uma rede de transporte público articulada, de forma a gerar mais densidade, mas com qualidade e diversidade de usos;

– Devem considerar a confecção de editais consistentes como base essencial para a realização de licitações de obras públicas a serem implementadas obrigatoriamente apenas após a elaboração prévia de projetos completos de Arquitetura e Urbanismo;

– Adotar o critério da melhor técnica no julgamento de licitações para projetos de Arquitetura e Urbanismo para obras públicas;

– Disponibilizar informações com total transparência e utilizar intensamente boas práticas de comunicação social;

– Investimentos em bancos de dados especializados que possibilitem informação em tempo real;

 


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Aluno do Mestrado Profissional do IPT ganha prêmio na Austrália por artigo sobre dispositivos de proteção solar

Trabalho se destaca ao propor projetos de edificações mais eficientes

Instituto de Pesquisas Tecnológica
IPT

Dias após defender seu trabalho de Mestrado Profissional em Habitação no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o arquiteto Matheus Tonelli já estava de malas prontas para viajar à Austrália e participar de uma conferência internacional promovida pela Universidade de Adelaide. Com seu artigo escrito durante o curso e orientado pela pesquisadora Maria Akutsu, responsável pelo Laboratório de Conforto Ambiental e Sustentabilidade de Edifícios, Tonelli recebeu o prêmio Student Travel Award, dedicado a estudantes estrangeiros, o que lhe rendeu oito convites para fazer doutorado em instituições de ensino do país.

O artigo de Tonelli, publicado em parceria com sua orientadora e sua co-orientadora e pesquisadora Adriana Camargo de Brito, também do IPT, apresenta um método para avaliar a eficiência de dispositivos de proteção solar de aberturas, também conhecidos como brises. O método permite que projetistas avaliem e comparem a eficiência deles escolhendo os elementos que possam contribuir mais para a melhoria do desempenho térmico e energético de uma edificação.

Para realizar a pesquisa, ele selecionou sete modelos básicos de brises tipicamente utilizados em edificações, e analisou a influência da forma desses dispositivos quando voltados a oito orientações solares (N, S, L, O, NE, NO, SO, SE), simulando, em computador, a quantidade de radiação incidente na janela de uma edificação em São Paulo. A eficiência dos dispositivos foi determinada em função da sua capacidade de redução da incidência de energia solar na superfície vertical analisada em comparação com a situação sem sombreamento.

“Muitos pesquisadores estudam o efeito de dispositivos de sombreamento de aberturas no desempenho térmico e energético de edifícios, porém a abordagem do Tonelli é inédita. Ele desenvolveu um método para avaliar esses dispositivos”, explica Adriana.

O artigo premiado de Tonelli é, na verdade, um resumo da sua dissertação de Mestrado, na qual ele analisa os formatos dos dispositivos de sombreamento e os diferentes resultados que eles oferecem. O resultado do trabalho também foi incorporado a uma ferramenta online de avaliações de dispositivos, disponibilizada pelo autor no link.

“Não consigo parar de sorrir”, conta Matheus, que já se mudou para a Austrália para dar continuidade a seus estudos.


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A lei da assistência técnica e a importância social da arquitetura

Tornar a arquitetura acessível é um processo longo e delicado que pode ser alcançado com a conscientização do papel social da profissão e estratégias políticas...

Arquiteta e Urbanista - Camilla Ghisleni
Archdaily

Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. O que parece ser a descrição contida em um classificado de jornal, na realidade, está muito longe disso. Os dormitórios voltados para sul não recebem luz necessária para possibilitar um ambiente salubre. O mofo e bolor corroem as paredes da habitação principal impregnando os pulmões de umidade e dificultando a respiração. A pequena janela, encontrada no terreno baldio próximo, não consegue suprir a necessidade de luz e ventilação no quarto das crianças, quarto este que agora se tornou insuficiente com a chegada do novo bebê. Os problemas estruturais encontrados no telhado, ocasionados pelo mal dimensionamento das vigas e a precária instalação elétrica, feita pelo próprio morador, são outras dificuldades que tornam a residência em questão uma bomba relógio.

O sonho da casa própria aos poucos desmorona.

Tais desafios causados pela precariedade da autoconstrução demonstram um antigo problema, a falta de auxílio técnico profissional no momento do projeto e da execução da obra. Infelizmente, hoje em dia, apenas uma pequena porção dos cidadãos consegue usufruir do trabalho de um profissional de arquitetura e/ou engenharia. Este fato resulta em uma enorme quantidade de habitações precárias – geralmente mais caras do que se tivessem sido construídas com a assistência – repletas de problemas relacionados não só ao conforto térmico mas também às questões estruturais.

Mas por que há esse abismo entre o cidadão necessitado de assistência profissional e os escritórios de engenharia e arquitetura? Escuto de muitos colegas de profissão reclamações recorrentes, a falta de trabalho, a dificuldade de inserção no mercado, a competitividade e disputa por reconhecimento profissional. Somado a tudo isto está essa mesma insatisfação perante o distanciamento entre a arquitetura social e engajada e o trabalho que se tem feito dentro dos escritórios. Todos estes problemas parecem se relacionar ao caráter elitista da profissão que vem desde os currículos universitários que não abrem espaço para disciplinas sociais e discussão de prioridades na criação de cidades mais justas e democráticas. Apesar da arquitetura mundial ter começado a dar indícios de um maior reconhecimento em relação a posição social da profissão – como o prêmio Pritzker 2016 enfatizando o trabalho e engajamento de Alejandro Aravena– ainda há muito status envolvido na profissão do arquiteto. Há a fomentação de uma ideia de arquitetura ‘autoral de sucesso’ que recebe destaque somente através de grandes obras de alto padrão. Estruturas devidamente elitizadas que trabalham com clientes de peso como única alternativa para alcançar o reconhecimento profissional. A arquitetura submete-se aos desejos de uma pequena classe, sendo constantemente associada a uma necessidade supérflua, situação que ignora a população que realmente a necessita. Há uma inversão de valores e o sonho de uma arquitetura democrática e social se afasta cada vez mais da atuação profissional.

Pois então, de que adianta alcançarmos reconhecimento com grandes obras se fracassamos no papel social da profissão?

Tornar a arquitetura acessível é um processo longo e delicado. Além da urgente e necessária conscientização do papel social da arquitetura, que começa dentro das escolas, estão surgindo estratégias políticas que alimentam uma atmosfera mais esperançosa para tal situação. A principal delas, hoje, talvez seja a promulgação da Lei da Assistência Técnica Gratuita n.º 11.888/08 que permite a assistência técnica publica gratuita no projeto de habitações para famílias com renda mensal de até três salários mínimos. Trata-se de um fundo de recursos públicos que possibilita a contratação de profissionais de arquitetura e engenharia para a construção destas residências.

O trabalho pode contemplar desde melhorias simples como abertura de janelas, redistribuição dos cômodos, até projetos mais complexos como reforço estrutural, dimensionamento de pilares e vigas, restruturação de projetos elétricos e hidráulicos. Além disso, por meio da lei, será possível qualificar o uso e aproveitamento do espaço edificado e seu entorno, formalizar o processo de construção e evitar a ocupação de áreas de risco e de preservação permanente. Vale ressaltar ainda que a assistência técnica pode ir mais além e atingir os processos de urbanização como a requalificação e projeto de praças, ruas e parques.

É justamente através de um trabalho individual e personalizado que a lei da assistência técnica surge como um importante passo para a democratização da condição habitacional no país. Essa característica afasta o projeto dos empreendimentos massificados e reproduzíveis, como o Minha Casa Minha Vida, já que mantém as famílias nos lugares onde vivem, usufruindo da infraestrutura – em alguns casos – já existente.

Apesar de estar em vigor desde 2008, o desconhecimento desta lei faz com que ela seja ignorada na grande maioria das cidades brasileiras, aumentando o distanciamento entre o profissional e a comunidade carente. Tendo em vista a importância da atuação social do arquiteto e valendo-se dessa lei, um grupo de estudantes e jovens arquitetos, juntamente com o IAB/SC, lançaram um financiamento coletivo para iniciar a implementação da lei em Florianópolis. Por meio deste projeto, a ONG Peabiru será convidada a ministrar a oficina que capacitará uma equipe multidisciplinar envolvendo arquitetos, engenheiros, advogados, assistentes sociais e os próprios moradores como agentes do processo. Atuando em uma comunidade local, o grupo diagnosticará os problemas e traçará diretrizes de atuação além de definir uma agenda para a implementação da assistência técnica.

É um pequeno passo para uma luta gigante. Mas por acreditar na importância social da arquitetura e no sonho de torna-la acessível e democrática a todos é que se lança esse desafio. Através de iniciativas independentes como esta alimenta-se um novo campo de ação para os arquitetos fazendo-os sair dos escritórios em altos prédios comerciais e encontrar a periferia, fomentando o real envolvimento com a comunidade.

Coletivamente, a luta pela democratização da profissão do arquiteto alcançará a margem, as habitações informais, o cidadão carente. E mudar a vida de uma pessoa através da arquitetura é o melhor reconhecimento que poderíamos ter dentro da nossa profissão.

 

Comunidade Mont Serrat em Florianópolis
Comunidade de Vila Aparecida na Grande Florianópolis
Comunidade Vila Aparecida na Grande Florianópolis