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Única arquiteta em uma família de médicos, Marília Ruschel até pensou em seguir os passos do pai e dos irmãos. Chegou a ingressar no curso de medicina, mas repensou a opção durante as aulas de fisiologia, que requeriam experiências com animais. Ingressou na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre, em 1974. “Preferi trabalhar com a arte, a beleza e a alegria das pessoas”, teria explicado à irmã. Na época, enquanto a maioria das mulheres ainda era criada para casar e ter filhos, ambas receberam o mesmo incentivo dos irmãos homens. “Meu pai nos preparou para o estudo e para a independência”, conta.

Recém-formada, passou os dois primeiros anos da década de 1980 aprofundando os estudos na Europa, junto com o então marido Nelson Teixeira Neto, também arquiteto. Neste período, conviveu com profissionais de renome, como a iraquiana Zaha Hadid, o português Alvaro Siza e o suíço Mario Botta. “Fizemos viagens de estudos para a Suíça, Itália, França e Alemanha. Estive em Berlim quando ainda havia o muro. Esta experiência foi muito rica e trouxe um grande amadurecimento profissional”, conta.

Quando retornou ao Brasil, o país recém começaria a absorver conceitos do urbanismo moderno. Até então, vigorava por aqui um modelo norte-americano de cidade que se revelaria um fracasso, nas palavras da arquiteta. “As cidades brasileiras eram muito segregadas, com bairros residenciais para diferentes classes sociais, bairros para trabalhar, bairros para se divertir, centros urbanos sem vida e pessoas dependentes do automóvel. Isso foi gerando um custo social tremendo, tanto do ponto de vista da infraestrutura quanto da falta de integração cultural”, analisa.

Os conceitos como integração social e resgate da relação com a natureza que norteiam o trabalho da arquiteta, incluindo projetos de escala social urbana pelo país, também foram levados para dentro da sala-de-aula. Marília Ruschel foi professora concursada da Universidade Federal de Santa Catarina em meados dos anos 80. Lecionava Arquitetura e Arquitetura e Urbanismo. A carreira foi interrompida pela exigência da dedicação exclusiva. “Eu sempre gostei de me expressar plasticamente, precisava da parte prática. Vieram demandas profissionais e também da família e decidi cuidar do escritório”, relembra.

Para Marília Ruschel, a equidade entre mulheres e homens é um processo em plena evolução e irreversível. “Ainda há desigualdades em diversas profissões. Mas essa diferença de valorização, que aparece em termos salariais e situações em que os homens são muito mais beneficiados, ao longo da história certamente vai desaparecer por que é parte da evolução da humanidade”, acredita. Esta mudança cultural se revela através da própria arquitetura, como por exemplo nos projetos residenciais. “Há vinte, trinta anos, as cozinhas eram espaços isolados. Hoje, são ambientes que fazem parte da sala de estar porque o homem também cozinha e cuida das crianças”, exemplifica.

A arquiteta acredita que há um novo olhar sobre o espaço urbano que busca a inclusão em contraposição à segregação, com cidades mais adequadas para as mulheres, pessoas idosas e com deficiência. “Hoje a gente procura uma cidade mais democrática, onde tudo acontece ao mesmo tempo. Acredito muito mais numa cidade multifuncional, com mais conforto, mais humanizadas. Cidades se desenvolvendo em bairros, com respeito à diversidade, menos deslocamento, que permita trabalhar e morar no mesmo local. A cidade é para as pessoas se desenvolverem e a proposta é uma vida muito mais dinâmica””, afirma Marília Ruschel.

Marília Ruschel foi uma das arquitetas indicadas pela enquete do CAU/SC para relatar sua trajetória na arquitetura neste Dia Internacional da Mulher

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